sábado, 7 de novembro de 2009

Czeslaw Milosz (1911 – 2004)


Descrição honesta de mim próprio bebendo um whisky no aeroporto, digamos de Mineápolis

Os meus ouvidos escutam cada vez menos as conversas, os meus olhos enfraquecem, continuando porém insaciados.

Vejo as pernas delas de mini-saia, de calças, ou de tecidos vaporosos,

Espreito cada uma, os seus rabos e coxas, pensativo, embalado por sonhos porno.

Ó lascivo velho jarreta, estás com os pés para a cova e não para os jogos e brincadeiras da juventude.

Mas não é verdade, faço apenas aquilo que sempre fiz, compondo as cenas desta terra, movido pela imaginação erótica.

Não desejo justamente estas criaturas, desejo tudo,
e elas são como um sinal de convívio extático.

Não tenho culpa de sermos feitos assim, metade de contemplação
desinteressada e metade de apetite.

Se depois de morrer for para o Céu, lá, terá de ser como aqui,
apenas hei-de livrar-me dos sentidos entorpecidos e dos ossos pesados.

Transformado em puro olhar, continuarei a absorver as proporções
do corpo humano, a cor dos lírios, a rua parisiense na madrugada de Junho.
Enfim, toda a inconcebível, a inconcebível pluralidade das coisas visíveis.

Sem comentários:

Enviar um comentário